Entrevista: A missão de formar para a indústria criativa

O papel da escola e a formação de novos cidadãos, são alguns dos tópicos que estão diariamente na pauta de Tiago Becker, 28 anos. Diretor do Colégio Gaspar Silveira Martins desde 2015, o profissional tem encarado a missão diária de pensar a educação. E muitas de suas ideias, embora venham da experiência diária e da formação acadêmica, também são obtidas pela intensa trajetória como estudante. 

Natural de Salvador do Sul, Tiago completou o Ensino Fundamental na rede pública de sua cidade, e por incentivo e investimento paterno, cursou o Ensino Médio em regime de internato, em Ivoti. Na instituição, pode aprimorar habilidades no esporte, no estudo de idiomas, especialmente a língua alemã, além de cursar o Magistério. Foi nesse período que o jovem teve a oportunidade, também, de realizar seu primeiro intercâmbio para a Alemanha, experiência que viria a repetir em diversas ocasiões durante sua formação.

A proficiência na língua estrangeira obtida, somada a uma oportunidade oferecida pelo governo da Alemanha, o levou a cursar a graduação de Letras Português-Alemão na Universidade do Vale dos Sinos (Unisinos). Após a conclusão do curso, deu continuidade aos estudos por meio de um mestrado em Teologia e Educação, cursado na Escola Superior de Teologia (Faculdades EST), onde se dedicou à pesquisa sobre gestão escolar em escolas confessionais, como é o caso do Colégio Gaspar. A pesquisa evoluiu para o doutorado, formação que o profissional conclui no próximo ano.

É para saber mais sobre ideias para a educação, assim como o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Colégio Gaspar Silveira Martins, que a coluna Gente & Negócios conversa com o diretor Tiago Becker. Acompanhe:

Como a escola tem atuado para formar novos profissionais?

Eu percebo que no futuro, não vamos mais buscar o profissional formado em uma determinada área. Nós vamos buscar a pessoa com habilidades em determinada área, com todas aquelas competências básicas que toda pessoa precisa ter, como ler, interpretar, escrever e calcular, além de outras competências muito importantes. Em primeiro lugar, a criatividade. Os empregos do futuro não serão empregos mecânicos. As pessoas servem para pensar. É a indústria criativa. Em segundo lugar, saber lidar com a pressão. O mundo é de rápidas mudanças, exigências, e precisamos saber lidar com isso. Também, motivação intrínseca, autoconfiança e, junto a isso, sempre a responsabilidade, pelos meus atos, junto a outras pessoas, a responsabilidade social e ambiental. Ainda não sabemos qual a profissão que o jovem vai ter no futuro, mas sabemos as habilidades ou competências que ele vai ter, e é isso que a gente vai ter que garantir.

E como conciliar essa visão de futuro, com exigências pontuais para os estudantes, como a necessidade de ser aprovado no vestibular?

O vestibular é uma parte de um processo, e será a consequência de um bom estudo. Se a gente colocar vestibular ou o Enem como a finalidade da escola, nós estaremos sendo simplistas, e nós estaremos destruindo o sonho que a escola deve vender, que é o de um futuro justo e digno por meio da educação. O objetivo da escola tem que ser muito maior.
Em recentes discussões, tenho falado sobre como medir o índice de qualidade de uma escola, e isso pode ocorrer de várias formas: como o professor está sendo formado, o desenvolvimento do aluno, infraestrutura física, dados de Enem, vestibular, índice de satisfação das famílias, entre outros. Mas eu diria que a melhor forma de medir a qualidade de uma escola, é olhar para o ex-aluno, aquele que está no mercado, com 30, 40 anos de idade, e está fazendo a diferença na sociedade, está mostrando o perfil ético, a sua responsabilidade com a sociedade, tendo sucesso com a vida.

Na sua opinião, qual é o diferencial do projeto educacional do Colégio Gaspar?

Tentar formar o jovem em sua forma integral. Com habilidades como criatividade e raciocínio crítico sobre o conhecimento, não apenas para passar no vestibular ou ter uma boa nota no Enem. Que ele saiba usar essas habilidades para a vida. Hoje, estamos trabalhando com projetos pilotos para auxiliar a escolha profissional, projetos de empreendedorismo, de intervenção social, de cultura maker (em tradução livre, algo como 'cultura do fazer').

Atualmente temos seis projetos pilotos na cultura maker, da Educação Infantil até o Ensino Médio, que aos poucos, vão fazer parte do contexto da escola. Com isso, nós vamos desenvolver um aluno que aprende a relacionar conceitos mais abstratos, com o fazer. Queremos que os alunos construam, que inventem, que relacionam o conhecimento do professor, com as tecnologias de hoje. O profissional do futuro vai ter que pensar, atuar, achar soluções, e é isso que nós estamos tentando formar.

Por Ana Flávia Hantt - Folha do Mate